Até para que não estranhem eu estar prosa com um texto sobre um fato tão condenável, explico: o autor, Antônio Dutra, é um bom amigo há uns 15 anos e é, cada dia mais, uma unanimidade na crítica especializada carioca como um promissor escritor da nova geração.
Essa é a sua primeira postagem pro blog "Paralelos", do O Globo online.
Enviado por Antônio Dutra - 31/1/2006 - 9:45
DA ÁGUA E DA VIDA
Não vem de hoje que a água está presente na literatura, só para citar de memória: o episódio “O velho” de "Palmeiras Selvagens" de William Faulkner, de modo parecido a fuga de presos no livro "Papillon" de Henri Carrière, as experiências marítimas de Joseph Conrad e mais remotamente – por que não – o relato de Moisés encontrado nas águas.
Foi justamente deste último que me lembrei quando a televisão tratou de transmitir as imagens do resgate de um belo bebê, quando (diante de um cinegrafista amador) um homem rompeu um saco plástico preto, às margens da Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte. De dentro, surge a autora do que antes parecia miado, e na verdade era o choro de uma menina que se afogava, envolta como que numa placenta negra, não de vida e aminoácidos, mas de morte e água.
Simone Cassiana da Silva alegou não ter condições psicológicas para criar a criança, além de ter sido surpreendida pela gravidez tubária, detectada tardiamente. Segundo a reportagem de O Globo (ontem, 30 de janeiro, pág.05 – O País), a jovem não pretendeu afogar a filha rejeitada, mas teria dado cinco reais a uma moradora de rua para que ficasse com a recém-nascida.
Longe de mim pretender dizer que este argumento tenha sido verdadeiro ou falso, ou mesmo pretender criar um debate sobre a possibilidade da interrupção de uma gravidez adiantada; mais do que temas que poderiam parecer laterais, diante daquelas imagens todas nas tevês no final de semana, eu só me perguntava afinal onde tínhamos (enquanto sociedade, pessoas que participam de uma mesma cultura e mesmo idioma), metido essa palavra denominada compaixão. Admitamos a versão contada: a jovem entregou sua filha para uma moradora de rua, que futuro afinal poderia vir a ter esta menina? e mais duro ainda pensar, que futuro tem tido tantas outras meninas pelas ruas? cinco reais sustentam a existência de alguém?
Recém-nascida, não será difícil imaginar que a menina de sete meses encontrará uma família. O episódio está sendo investigado, Simone foi detida, e a vida segue seu curso, áspero, caudaloso, mais absurdo que qualquer ficção.
Referências que não são a verdade, mas baseadas nela. Marcos pra que eu lembre da minha vida no futuro e não me esqueça... de nada!
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário