Referências que não são a verdade, mas baseadas nela. Marcos pra que eu lembre da minha vida no futuro e não me esqueça... de nada!

segunda-feira, janeiro 11, 2016

O Evangelho Segundo David Bowie.

Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém. 

Rei Salomão, Eclesiastes 7:1




O mundo foi tomado pela surpresa da morte de David Bowie, de cancer, numa batalha silenciosa  só divulgada junto à notícia de sua morte, ao terceiro dia após o lançamento do seu ultimo disco, Blackstar. "Curiosamente" lançado no dia do seu aniversário de 69 anos.

Num resultado calculado e esperado por Bowie, amigos próximos relataram passagens dos últimos contatos com Bowie que soaram como uma despedida. Entretanto, foi sua recém-lançada última obra que soou ao mundo como uma clara despedida. Não um disco póstumo, mas um disco sobre a morte e o que viria depois para Bowie desde o diagnóstico sombrio.

Não é incomum que a notícia da morte com data marcada, ou o anúncio do prazo de validade da vida a vencer faz deste período uma fase de avaliação da própria história e de preocupação com o após a morte. Na mente de um artista produtivo e brilhante como Bowie, o contraste da persistência da sua obra com o fato da sua energia criativa se acabando na morte constitui-se até numa afronta.

Mas nesse momento rico como a morte, Bowie, assim como Salomão, se debruça e a usa de matéria bruta para aprender e criar arte tratando da morte e da expectativa sobre o que vem. Veja por exemplo estes trechos da letra da música tema deste trabalho, Blackstar.

Something happened on the day he died
Spirit rose a metre and stepped aside
Somebody else took his place, and bravely cried
(I’m a blackstar, I’m a blackstar)

Bowie conta a história de alguém que assume o lugar de alguém prestes a morrer, assumindo a persona do condenado, a clamar, "sou blackstar"!

Nos dois refrões fica clara a intenção daquele que substitui Blackstar na morte. Seu substituto possui uma dualidade messiânica-cristã muito clara.

No primeiro refrão, divino e poderoso.

I can’t answer why (I’m a blackstar)
Just go with me (I’m not a filmstar)
I’m-a take you home (I’m a blackstar)
Take your passport and shoes (I’m not a popstar)
And your sedatives, boo (I’m a blackstar)
You’re a flash in the pan (I’m not a marvel star)
I’m the great I am (I’m a blackstar)
No Segundo, humano e falho, porém íntegro. Alguém que toma o lugar de um pecador, mas sem culpa.

I can’t answer why (I’m not a gangster)
But I can tell you how (I’m not a flam star)
We were born upside-down (I’m a star star)
Born the wrong way ‘round (I’m not a white star)
(I’m a blackstar, I’m not a gangster
I’m a blackstar, I’m a blackstar
I’m not a pornstar, I’m not a wandering star
I’m a blackstar, I’m a blackstar)

Bowie sempre foi inventivo e sombrio em toda a sua carreira. Com sua morte, ele incorporou, por metalinguagem, a morte, sua visão do cristianismo e o porvir à arte. Veja o video de Blackstar e veja quão clara era a sua intenção!

Bowie nos mostrou que não há aspecto da vida, nem a morte, que não possa ser arte.