Ontem, convidado e financiado fui conferir o pré-hype chamado o “Teatro mágico” em sua primeira apresentação por aqui, no teatro odisséia.
A banda/performance já é a favorita dos alunos de sócio/filo/antropologia nesse período de entressafra Los hermânica. Basicamente as novas gerações dos eternos órfãos de Raulzito e Legião.
Musicalmente falando OTM é a mistura de Charlie Brown + Los Hermanos + Dave Mathews (ou Jack Johnson ou qualquer branquelo baladeiro afim) + samplers. Instrumental mediano, ninguém se destaca, mas não compromete. As mudanças de ritmo em suas intermináveis músicas me faziam pensar que estava a ouvir à trilha sonora de um seriado adolescente descolado e neo-hippie, tal era a profusão de sandálias baixas, camisas indianas, chapéus, cabelos milimetricamente dessarrumados e barbas por fazer (obrigado, minhas acompanhantes consultoras de moda).
Antes do show, duas barraquinhas a vender todo o farto merchandising da banda, inclusive narizes de palhaços, sim, pois OTM se apresenta como uma trupe circense. Na hora do show, me posicionei, por pura falta de espaço, colado ao balcão do bar. Pela graça divina, o melhor lugar pra ver o show. Não, eu não bebi pra gostar dele, vocês entenderão.
Fiquei impressionado com o público que nunca tinha os visto pessoalmente, mas sabia cantar as letras de todas as músicas, além de ter decorado as muitas falas do cantor/mestre de picadeiro.
Então OTM é bom? Pelo contrário! Tudo ali é milimetricamente calculado e faz parte de uma extensa reciclagem de tudo que pode agradar aos jovens tendo um quê de contestador, sem o ser na realidade. A figura anárquica do palhaço, que, desde Chaplin, trouxe a si arraigada a crítica social, a profusão de ritmos e estilos intercalando estrangeirismos com brasilidades, as performances em paralelo pra tirar o foco, os trechos de músicas de outros (New Order, Dave Mathews e, é claro, Los Hermanos) entremeadas às próprias.
Mas o que incomoda é que OTM se leva a sério, e muito! Acham realmente que fazem diferença pelo simples fato das sacações que têm (citadas acima) agradarem a uma primeira e desarmada impressão. Cantam com fé, com o coração, mas na verdade é uma coleção de lugares comuns e clichês pra revoldescolados de botique. Na terceira música do show, segue o diálogo.
Barwoman: moço, que horas são?
Eu: meia noite e quinze.
Barwoman: vai ser uma longa noite!
Músicas sobre a “poesia das coisas simples do dia a dia”, como, por exemplo, o feijão com o arroz como metáfora para o viver em sociedade, música engraçada sobre a empregada (com direito a sampler de uma fala da tal) pra se ter desculpa pra falar da exclusão social. O conceito repetido ad nauseum de que “todos devem ser um, assim como todos estão em um”, ou “os opostos se distraem e os dispostos se atraem”, arrematado pela frase feita de amor mais piegas de todos os tempos: “te amarei apenas enquanto eu respirar” são ditas como se fossem verdades profundíssimas e inéditas.
Se OTM não achasse que isso é sério, é pra valer, ou pelo menos, deixasse que o público chegasse às conclusões. Mas não! Ele conclui pra você! Portam-se como bastiões de correção e integridade, disparando discursos contra a indústria da música e contra os tempos modernos, incentivando a proliferação de saraus (aaaaaaaaaaaaaaargh!) e aquele conceito “novo e fofo” da “paz e amor”.
Você quer saber de quem OTM chupou isso tudo? Desse cara aqui. Simplesmente a figura mais chata e pretensiosa da música brasileira! Desafio a qualquer um aqui a saber o nome de 5 músicas dele e cantar uma inteira.
Barwoman: moço, e agora, que horas são?
Eu: uma e quinze.
Barwoman: caraça! O tempo não passa!
Essa entende de música!
Vai passar, barwoman! Vai passar!