Mas qual foi a minha surpresa ao ver a fundição lotada, e me embasbacar ao ver que praticamente todas as músicas eram cantadas por mais da metade dos presentes ali, sem histeria, mas numa clara representação de uma fortíssima relação entre banda
e público.Afinal, qual é a razão que faz com que a turnê de um disco tão introspectivo, com uma banda que tem 3 componentes com a presença de palco de marmotas, cujo quarto, o mais extrovertido, parece querer perpetuar o estilo de dança de Didi Mocó, fazer tanto sucesso?
Penso sucintamente em duas.
Primeira, a ausência de bandas com o mesmo misto de erudição e jovialidade do LH. Se existe algum requinte em letras, geralmente está em artistas jovens que fazem MPB, e nunca a MPB esteve tão pouco P como hoje. Ela se tornou uma cobra atrás do próprio rabo, comandada pelo mesmo esquema gravadoras/artistas/críticos perpetuado desde a década de 60, com apenas reposições de peças, sem nenhuma grande novidade em termos de musicalidade. Daí vê-se como quase passou em branco à volta dos Mutantes. Teve que ter o hype de fora pra rolar matéria no fantástico.
Nessa área, é bom ressaltar que o LH tem apreço pelos medalhões da MPB, quem pára pra realmente ouvir LH, acha muito de Edu Lobo, Chico e Marcos Valle em suas composições. E o que dizer da parceria Marcelo Camelo/Maria Rita, senão como um sinal claro de identificação entre LH e MPB?
Quando nós falamos de bandas jovens hoje, é impossível encontrar algum conteúdo fora do LH. O que na década de 80 era distribuído entre Legião, Paralamas, Titãs e Barão, pra citar só os medalhões, hoje não existe mais. É uma sucessão de Charlie Browns, Pittys e afins, cujo mérito é apenas combinar imagem, atitude e punch como forma de fazer sucesso. É moda, nada mais.
Mas as pessoas querem músicas que marquem momentos, que façam a trilha sonora da vida, não de apenas um verão.
E é aí que entra a segunda razão. O cotidiano das letras do LH é calcado num estilo de vida que não é marginal, tampouco glamouroso, mas em fatos da vida pelos quais todos passam. Durante o show, fiz uma brincadeira mental tentando lembrar em que histórias da minha vida certas músicas se encaixavam. Olha que não foram poucas, até esse blog já testemunhou.
Daí a platéia dos LH ser uma das mais heterogêneas que conheço. Existe a galera simples, os jovens barbudos (dessa vez menos), as patys e boys, as pistoleiras, os emos, os poetas, a galera da rodinha de violão... lista grande, todos satisfeitos.
Afinal, como não se identificar perante tais frases?

“De tanto eu te falar você subverteu o que era um sentimento e assim Fez dele razão... Pra se perder no abismo que é pensar e sentir.”

“Deixa eu brincar de ser feliz,Deixa eu pintar o meu nariz”
“Iaiá, se eu peco é na vontadede ter um amor de verdade.Pois é que assim, em ti, eu me atirei e fui te encontrar pra ver que eu me enganei.”

A relação entre LH e seus fãs, a meu ver, começa a encontrar apenas um paralelo na história recente da música brasileira, a dos fãs do Legião Urbana.
Fãs não são racionais, se submetem a “sacrifícios” e esforços pelo seu ídolo. É difícil argumentar com estes, pedir senso crítico de quem está seriamente prejudicado a ver defeitos no ídolo, até porque é difícil entender porque alguém é fã se não for, da mesma forma, um fã também.
Entendendo isso e o paralelo entre LH e LU, viu-se, nos fãs destes últimos, uma aceitação não crítica dos últimos trabalhos, até mesmo os pós-mórtem do Renato Russo, quando a banda(?) estava vivendo, para quem não era fã, uma fase depressiva e pouco criativa musicalmente.
Com relação ao LH, com a desculpa de uma experimentação musical, vejo uma queda no padrão melódico da banda e, principalmente, da parte do Rodrigo Amarante, uma despreocupação em se fazer entender ou em equilibrar letra e música. Parece que o LH ouviu a crítica sempre positiva, o incenso subiu à cabeça. E agora, o que vai dar?
Bom, para mim, eles ainda têm um saldo bom na minha consideração.

Um comentário:
Ahahahaha...
Ri que me engasguei quando vc falou sobre a dança do Didi Mocó! MTO BOM!
Bjux!
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