
O EX QUE LIGA SÁBADO
Aí você está linda e loura - ou morena, ou mulata - numa festa de arromba, em pleno sábado... e seu celular, no vibracall, faz sua bolsinha de mão parecer o Paquistão abalado pelo terremoto. Treme, treme, treme... derrubando as tacinhas de champanhe servidas na mesa pelo garçom. Você enxerga o abalo sísmico, sai da pista de dança correndo para lá, curiosa para ver quem ligou. Afinal de contas, é sábado, né? E você, embora felicíssima e evoluindo na pista... está solteira.
Seis chamadas perdidas, nossa! Todas do seu ex.
Aconteceu isso recentemente com uma amiga minha e, devo dizer, fiquei muito mais revoltada do que ela. Ex que liga para marcar presença é irritante sempre porque, se ele decidiu ser ex, é melhor que assuma logo este passado. Mas há algo nos homens que beira o instinto animal, né, meninos? Basta verem que a gente ganhou asas, que a gente está bem pra caramba e lá vêm vocês, fazendo xixi no antigo poste, para assegurar que aquele território ainda lhes pertence.
Ex que ressurge do mundo dos mortos, como um assustador Freddy Kruger, é muito irritante. Mas um Freddy Kruger sábado à noite é para ter medo de dormir - com o próprio - pelo resto da vida. Porque a ligação para a ex, no sábado à noite, só tem perdão se for pedido de perdão, pedido de arrego ou - a melhor das hipóteses - uma baita declaração de amor.
No caso da minha amiga não foi nada disso: o sujeito queria "conversar". E ele é reincidente, sempre quer "conversar" no sábado à noite, dia institucional dos solteiros-que-podem-virar-casados. Sim, sim, sim: o medo do cara, é claro, é que minha amiga, uma pessoa inteligente, bonita e bacana demais, deixe de ser solteira e, silenciosa para ele para sempre, vire mulher com um namorado - e depois marido, quem sabe - muito melhor do que ele foi. No sábado, as chances de isso acontecer - ou estar acontecendo, num gerúndio que apavora os homens mais do que o usado pelas atendentes de telemarketing - são maiores. Estamos de folga, no domingo acordamos tarde... e podemos acordar acompanhadas, certo?
Aí o cara vai lá e... liga para "conversar". Seria apenas engraçado, se muitas mulheres não caíssem nessa. Continua sendo engraçado, visto de longe. Mas também é trágico: de um lado porque, se ainda ama a ex, o cara que liga sábado não está sabendo, como é típico dos homens, assumir isso. A "conversa", na maior parte dos casos, vai manter tudo como está e só vai trazer mais sofrimento.
Encontrar o ex só vale a pena quando é reencontro: quando os dois lados são corajosos o suficiente para assumir que a vida fica mais completa se aquela outra pessoa estiver nela. Mas para isso é preciso coragem, porque houve um término -portanto é preciso, saber, também, que aquela pessoa tão necessária não é perfeita, pode ser bem diferente de você... e vocês dois vão ter que ter trabalho para aparar arestas. Ufa.
Outra possibilidade de encontro muito prazeroso com seu ex é quando ele já é ex há tanto tempo que já deixou de ser ex para ser seu amigo.
O outro lado trágico da história é que, quando responde ao ex que liga sábado, a moça acaba lembrando das vezes em que viveu um amor louco com o cara que liga sábado, esquece das vezes em que sua vida foi um terror... e acaba esquecendo, também, do cara lindo que estava dançando ao lado dela antes de a bolsa de mão trepidar como o terremoto que abalou o Paquistão. E que não era passado, mas podia ser promessa de um ótimo futuro.
O retorno àquelas seis ligações perdidas é uma aposta na incerteza. É como se perguntar se ainda há sobreviventes nos encombros do Paquistão cinco dias depois de os edifícios desabarem. Milagres acontecem, para quem acredita neles. Mas são raros...
Retirado de http://oglobo.globo.com/online/blogs/garota/
Deixando de lado o maniqueísmo da diferença entre homens e mulheres, cada vez mais batido, deve se registrar a existência DA ex, tão complicada quanto.

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