
Foi quando se deu conta do quanto estava mal. Mesmo sob longo jejum, a idéia de comer lhe dava ânsias, além da certeza de que qualquer coisa na sua boca seria igualmente insossa.
Ali, na ponta daquela mesa, a mesma que compartilhara o riso das crianças e as confidências dos adultos, era agora longuíssima e solitária. As pessoas à sua volta, antes a viver o charme que apenas uma vida cotidiana pode ter, a olhar para baixo, como a procurar algum consolo como algo de valor naquele chão. As paredes de cores claras a refletir insistentes penumbras, que duravam dias e dias.
Um luto presente na casa onde ninguém morreu, uma tristeza cortante mesmo com tanta vitória lá fora. Tudo aparentemente tão normal, mas tão sem brilho e prazer.
Recolocou o garfo na mesa, empurrou o prato para longe de si e decidiu voltar. Voltar pro mesmo quarto escuro, pra mesma cama desarrumada, pra mesma cabeça estrategicamente vazia, pro mesmo corpo convenientemente cansado.
Foi quando se deu conta do quanto estava mal.

Um comentário:
Foto tirada por mim. Interior de um dos barracos da rodovia da fome, Teixeira de Freitas, BA.
Foto originalmente em preto e branco.
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