Você tem uma imagem de uma vida ideal. Seria uma vida com um companheiro ideal, com crianças ideais, um animal de estimação opcional, numa casa confortável, onde não faz nem tanto calor, nem tanto frio, onde não chove tanto, nem se está muito seco.
Nessa vida ideal, talvez você não seja necessariamente rico ou famoso, talvez tenha condições de viver confortavelmente, viajar nas férias e sair com alguma freqüência. Uma vida tranqüila, normal, ideal.
M e S seriam o protótipo dessa família. M, conhecido meu há 15 anos, é uma pessoa das mais doces, inteligentes e ponderadas que conheço. Sumiu por um tempo para ressurgir acompanhado de S, sua esposa, formando aquele tipo de casal tão entrosado que tem gente que acha até que são irmãos. M e S sumiram por mais um tempo, até este natal, quando M pediu pra que eu fosse à sua casa.
Cheguei à sua casa nessa semana, na certeza de que o assunto seria sério e que a minha responsabilidade e cuidado com o que falaria seria fundamental.
Após ser recepcionado por M, vejo sua filha M, uma esperta e linda menina de quase 3 anos. M é daquelas crianças que não dispensa sentar na mesa pra jantar com seus pais e que é capaz de, quando posta pra dormir e bagunçar todo o seu quarto, na hora do flagra, juntar as mãozinhas e começar uma oração bem baixinho, com a sua voz de boneca. Sim, a pequena M é esperta o bastante pra enganar seus pais dessa forma. Seria essa uma característica de quem tem a Síndrome de Down?
Encontro S colocando o pequeno G (cerca de 5 meses) de idade no berço. G quer dormir, mas S insiste pra que mame, pois G precisa tomar sua mamadeira especial a cada duas horas e os horários devem ser respeitados com rigor. Por quê? Porque G possui um defeito metabólico em que não é capaz de absorver alguns aminoácidos da sua alimentação. Estes transformam-se em amônia que, em altas concentrações, é capaz de causar convulsões. G viveu a metade de sua curta em hospitais até que, só recentemente, fosse diagnosticado a que grupo de doenças sua patologia pertence. Um neném gordinho e corado que não aparenta já ser tão sofrido.
Sento pra conversar com M e S, que me contam sobre G. Talvez me antecipando ao que eles falariam, começo a perguntar.
- O que vocês acham que Deus quer com tudo isso que vocês têm passado? Vocês se revoltaram com Deus? Perguntaram o porquê dessas coisas?
S se apressou e respondeu.
- M nunca se revoltou, mas eu sim, eu questionei e até me revoltei com Deus, mas eu vi que era Ele que nos sustentava a cada dia de internação de G, quando éramos testemunhas das tentativas cirúrgicas de se achar uma artéria pra colher sangue, das convulsões que não cessavam nem com remédio. A gente conseguiu ver que se as coisas eram suportáveis, eram porque Deus estava ali, de forma silenciosa e discreta, a nos cuidar.
M continuou.
- Eu não vou negar que o que vivemos com a M nos deu alguma estrutura para o G. Quando M foi diagnosticada com Down, disse a S que nunca choraria pela minha filha além do que qualquer pai choraria por uma filha saudável. M não tem nenhum problema físico, apenas dificuldade com a fala, é esperta como qualquer criança da sua idade e eu sei que com o G o mesmo milagre irá acontecer.
- E no que vocês querem que eu ajude vocês? - Intrigado, perguntei.
- Queremos nos aproximar mais de Deus. – Disse M – Somos gratos por G estar em casa agora, vimos à mão de Deus nessa recuperação. Queremos nos aproximar de Deus não como quem paga uma promessa ou faz uma barganha com Ele. Queremos isso porque, por tudo que passamos, sabemos que é a coisa certa, é a nossa necessidade. Nunca negamos a nossa fé, mas agora queremos praticá-la.
O resto da visita constou de como esse desejo poderia ser realizado na prática, mas na verdade, me senti um privilegiado por testemunhar, no interior de um modesto apartamento, uma grande manifestação de fé.
Você poderia dizer que essa família não é ideal? Afinal, o que é o ideal, senão uma convenção baseada em normas. E como é bom quando as convenções são quebradas e aprendemos que existem diferentes formas de um ideal. Deus parece particularmente interessado nessas quebras.
M e S são pais cansados, com olheiras nos olhos e talvez pouquíssimo tempo até um para o outro, mas quando me despedia com uma oração do G e quando a pequena M nos fez brincar de roda ali na cozinha antes de ir embora eu vi toda a felicidade do mundo na forma de uma família. Uma família ideal.
- M, muito obrigado por esse convite, to saindo daqui abençoado por vocês!
- Que é isso, Te! Poxa! Então foi bom pra todos nós, devemos repetir mais vezes.
Com certeza, M, com certeza.
Abaixo, textos da bíblia que citei na visita a M e S.
Jó 2:
10 Mas ele lhe disse: Como fala qualquer doida, assim falas tu; receberemos de Deus o bem, e não receberemos o mal? Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios.
Jó 42:
5 Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora te vêem os meus olhos.
Jeremias 29:
11 Pois eu bem sei os planos que estou projetando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança.