Esse post trata do filme Superman: o retorno, ainda em cartaz. Se você ainda não viu, vai aproveitar muito mais o post depois de vê-lo, porque eu vou estragar abaixo várias das surpresas do filme.
A tarefa proposta ao diretor
Bryan Singer não era das mais fáceis: continuar a saga do Superman no cinema, a partir dos filmes que realmente importaram e definiram o personagem pra telona –
Superman, o filme e
Superman II – dirigidos respectivamente por
Richard Donner e
Richard Lester.
Para a época, esses dois filmes apresentaram um salto enorme em torno dos efeitos especiais, quando se prometia que “acreditaríamos que um homem pode voar”. Afinal, todos conhecem o super, sabem da sua quase onipotência, um ser particamente sem defeitos a serviço da Terra. Mais do que tornar tal personagem interessante, mostrar por quais métodos ele consegue tais feitos era, na época, um tremendo desafio.
Mas você deve ter visto, no mínimo nas antigas sessões da tarde que Donner, bem acompanhado por
Brando,
Hackman e principalmente
Reeves, foram bem sucedidos na empreitada. Na abordagem dos filmes, Superman nunca deixa, apesar de ser criado na Terra, de ser um alienígena. Apesar de amar e sentir sensações como a maioria de nós sente, sabia que o legado que seu pai kriptoniano lhe deixara era justamente de ser a força motriz para a proteção e o bom desenvolvimento da nossa raça, chegando, quem sabe, a reproduzir aqui o paraíso que era Kripton.
É também a partir deste conceito de ser um alienígena que “Superman, o retorno” trabalha, agora voltado ao fato deste se ser a menor das minorias, ser – ironicamente - um solitário, um marginalizado, característica esta que todos viveram nem que seja uma vez na vida. Gays (como o diretor), negros, muçulmanos, cristãos (dependendo da localização geográfica), gordinhos, feinhos, ou até os mais perfeitos, no caso, até o mais perfeito.
Singer parte da lembrança do pai de Kal-El, Jor-El: de que ele, o Superman seria diferente e, portanto solitário, mas que lembrasse sempre que sua vida é a continuidade daqueles que viveram antes dele. A frase: “o pai torna-se o filho, e o filho torna-se o pai” remonta claramente a afirmativa que, se existe alguém que lhe entende, é aquele que lhe criou, que lhe viu crescer, que sabe de onde vem e para onde provavelmente irá, pois de alguma forma está do seu lado.
Mas o que difere muito mais “Superman, o retorno”, de um típico filme de ação, é que roteiro e direção conseguem transmitir, além desse libelo sobre a solidão, uma forte imagem messiânica associada ao personagem.
Esta característica não é nova. Os criadores do Superman:
Jerry Siegel e
Joe Shuster, judeus, abertamente associam à imagem do herói ao messias hebraico, ainda por vir segundo a fé que praticavam. Um indivíduo maior que leis, governos e até da moral, em prol do bem maior, dos oprimidos. É um herói muito pouco misericordioso, mas extremamente justo.
Como na evolução bíblica do velho para o novo testamento, do Deus justo para o Deus misericordioso, do messias governante para o sacrificial, ou seja, cristão, a imagem messiânica ligada ao Superman também transformou-se com o tempo. O que me deixou curioso é a quantidade de relações com a figura de Jesus presentes no filme. Coincidência ou não, vamos a elas, sempre “linkando” com as passagens bíblicas correspondentes.
A própria frase: “o pai torna-se o filho, e o filho torna-se o pai”, ganha um sentido messiânico no contexto da trindade divina (Deus Pai, o filho e o Espírito Santo são um) e da
intensidade da comunhão que existia entre Jesus e Deus.
A batalha final com Luthor possui várias semelhanças com a via crucis.
O local da batalha é a ilha formada pelos cristais de Kripton, onde estava a presença de seu pai. O martírio de Jesus se dá em Jerusalém, local do templo judaico, onde residia a presença de Deus, seu Pai. Quando Jesus vai a Jerusalém na sua última e fatídica viagem, não faz nenhuma demonstração pública de seu poder, pelo contrário, passa por um momento de
grande angústia no Jardim do Getsemani. Ao chegar a ilha, Superman se sente debilitado, o que proporciona seu
espancamento, parte comum do martírio dos dois.
Ao final do espancamento, Luthor desfere seu golpe de misericórdia: crava um pedaço de kriptonita no Superman. O detalhe é o local onde ela é cravada,
no lado do corpo, como se tem o cuidado de ser relatado até pelos médicos mais tarde no filme.
Superman é jogado no mar, o que remete à figura do batismo, que na cultura da época de Jesus era realmente um mergulho nas águas e não a sua aspersão como, por exemplo, a igreja católica o pratica. Batismo simplesmente significa mergulho em grego. A figura do batismo tem seu significado: quando mergulha-se, morre-se para o mundo, quando emerge-se, nasce para Deus. O detalhe é que Superman não emerge por conta própria, ele é retirado por Lois Lane, ou seja, seus feitos a partir dali estão ligados à sua “morte”.
Com o pouco de força que lhe resta, Superman se dirige ao sol (figura divina de muitas religiões), sua fonte de energia. É hora de um último sacrifício:
remover toda a ilha, formada pelos cristais de Kripton, do nosso mundo, como se crê que, somente em sua morte, Jesus trouxe o perdão para todos os pecados, tomando-os sobre si como uma punição imerecida. Ao fim da tarefa, ele jaz na estratosfera, na "coincidente" posição da cruz.

Sendo inteligentes para não chegar ao ponto de serem chamados de hereges por parte dos fanáticos com tantas coincidências, os roteiristas fazem com que Superman se recobre do coma em dois dias (o médico faz questão de dizer a Lois que ele está ali há um dia), ao contrário de Jesus, que ressuscita três dias após a Sua morte. Mas mesmo ali há uma coincidência:
seu quarto é guardado por guardas, mas é uma mulher (a enfermeira) que descobre que o quarto está vazio.
A maioria das coincidências é sutil, acredito que muitas nem são propositais e de forma alguma tiram o valor do filme, pelo contrário, aproximam o Superman da figura mais querida da história humana e mostra o forte lado sacrificial e, portanto, solitário do herói ou do messias.
Afinal, ser responsável, por um mundo todo que sequer lhe conhece realmente e para com o qual é impossível de fato conviver é, acima de tudo, um ato de amor. E é essa a “coincidência” mais preciosa entre a história do Superman, o retorno e a de Jesus: são duas histórias de amor – pela vida, pelo mundo, por mim e por você.