Melhor é a boa fama do que o melhor ungüento, e o dia da morte do que o dia do nascimento de alguém.
Rei Salomão, Eclesiastes 7:1
O mundo foi tomado pela surpresa da morte de David Bowie, de
cancer, numa batalha silenciosa só divulgada junto à notícia de sua morte, ao
terceiro dia após o lançamento do seu ultimo disco, Blackstar. "Curiosamente" lançado no dia
do seu aniversário de 69 anos.
Num resultado calculado e esperado por Bowie, amigos próximos relataram passagens dos últimos contatos com Bowie que soaram como uma despedida.
Entretanto, foi sua recém-lançada última obra que soou ao mundo como uma
clara despedida. Não um disco póstumo, mas um disco sobre a morte e o que viria depois para Bowie desde o diagnóstico sombrio.
Não é incomum que a notícia da morte com data marcada, ou o
anúncio do prazo de validade da vida a vencer faz deste período uma fase de avaliação da própria história e de preocupação com o após a morte. Na mente de um artista produtivo e brilhante como Bowie, o contraste da persistência da sua
obra com o fato da sua energia criativa se acabando na morte
constitui-se até numa afronta.
Mas nesse momento rico como a morte, Bowie, assim como
Salomão, se debruça e a usa de matéria bruta para aprender e criar arte
tratando da morte e da expectativa sobre o que vem. Veja por exemplo estes
trechos da letra da música tema deste trabalho, Blackstar.
Something happened on the day he died Spirit rose a metre and stepped aside Somebody else took his place, and bravely
cried (I’m a blackstar, I’m a blackstar)
Bowie conta a história de alguém que assume o lugar
de alguém prestes a morrer, assumindo a persona do condenado, a clamar, "sou blackstar"!
Nos dois refrões fica clara a intenção daquele que substitui
Blackstar na morte. Seu substituto possui uma dualidade messiânica-cristã muito clara.
No primeiro refrão, divino e poderoso.
I can’t answer why (I’m a blackstar) Just go with me (I’m not a filmstar) I’m-a take you home (I’m a blackstar) Take your passport and shoes (I’m not a
popstar) And your sedatives, boo (I’m a blackstar) You’re a flash in the pan (I’m not a marvel
star) I’m the great I am (I’m a blackstar)
No Segundo, humano e falho, porém íntegro. Alguém que toma o lugar de um pecador, mas sem culpa.
I can’t answer why (I’m not a gangster) But I can tell you how (I’m not a flam star) We were born upside-down (I’m a star star) Born the wrong way ‘round (I’m not a white
star) (I’m a blackstar, I’m not a gangster I’m a blackstar, I’m a blackstar I’m not a pornstar, I’m not a wandering star I’m a blackstar, I’m a blackstar)
Bowie sempre foi inventivo e sombrio em toda a sua carreira.
Com sua morte, ele incorporou, por metalinguagem, a morte, sua visão do cristianismo e o
porvir à arte. Veja o video de Blackstar e veja quão clara era a sua intenção!
Bowie nos mostrou que não há aspecto da vida, nem a morte,
que não possa ser arte.
Poderia ter sido um dia de júbilo. Poderia ter sido um dia de tripúdio. Poderia ter sido um dia de extravassar. Poderia ser um dia de sentimentos ruins voltarem.
Decerto que foi, por muito tempo, um dia aguardado. Era um dia que certamente viria.
Mas quando chegou foi um dia normal. Protocolar, formal e seco. Mesmo que eu quisesse ou até forçasse, não sentiria nada hoje.
Nada que cause espanto, afinal, essa é a marca daquele grande fichário de coisas que se escondem e se resumem em uma categoria. Um fichário chamado passado.
E quem é que pode dizer que ter a burocracia do passado da sua vida tão organizado não é algo grande? Pensando bem, o fato do dia ter chegado e ter sido um dia comum, faça dele um dia especial.
Ps.: Volto a esse lugar, palco de parte dessa história.
Pra início de conversa, fui mais por my D, porque ia ser um show fofo, como é o filme "once", mas olha, foi além das minhas expectativas.
Quem abriu foram os "varandistas", que é a Maria Gadu mais uns caras, fazendo um show banquinho e violão que não se sustentou mais que a meia hora que rolou. A som livre tá bancando e ao que parece tá hypado no circuitinho dos novos atores globais.
Agora, vamos ao SS. Tem que se elogiar a potência de voz do Glen Hansard. O cara começa o show cantando no gogó e com o violão desplugado e todo vivo rio escuta perfeitamente. O cara é muito carismático, mostra gostar do que faz e cria um contraste muito interessante com a Marketa Irglova, que é muito tímida e é a responsável por todos os momentos intimistas do show. Mas os dois foram muitos simpáticos, falando bastante em português até.
O show teve as músicas do filme, umas duas do the frames, uma cover do Van Morrison, uma música instrumental celta pelo violinista da banda, usando violino e samplers.
Pontos altos: a história que Marketa conta de como todos ficaram com a língua dormente quando comeram castanha de cajú "in natura" aqui no Rio, a história de Glen dando de presente de natal uma cova para a sua namorada gótica. O bis com Caetano (curucucu paloma, por Marketa) e Kraftwerk (the model, por Glen) em rítmo de bolero e eles pensando que estavam tocando samba, chamaram umas meninas pra dançar no palco, que rebocaram a tímida Marketa pra roda.
Depois, num momento jabá, chamaram os tais dos varandistas de volta pra cantar umas músicas na base do violão desplugado e sem microfone.
Pra qualquer um que esteja lendo os jornais, tem-se a impressão de que o Brasil está vivendo - finalmente - o momento de colher o fruto de uma breve história macroeconômica e de conjuntura internacional favoráveis. Uma economia estável, porém dinâmica, num país sem dívida externa, embora com um aparelho público inchado e burocrático.
Esta imagem de potência em potencial do Brasil se mostra ainda mais animador quando verificamos o que atrai o interesse do mundo em nossa direção e o que é propagandeado como sinal de progresso nacional: nossas jazidas de petróleo, nosso biocombustível e nosso potencial de produzir alimentos.
O que me faz pensar que num contexto histórico nada mudou na essência. Antes exportávamos pau-brasil e café e tínhamos nosso ouro como riqueza alheia. Hoje, exportamos o álcool e mais alguns gêneros alimentícios pra praticamente todo o mundo e seduzimos o mundo com o nosso "ouro negro" do pré-sal. Produzíamos e produzimos ainda pros outros. Isso é progresso?
Mas talvez possamos argumentar que hoje esta riqueza fica nos bolsos de empresas nacionais. Será mesmo? Será que podemos argumentar que na globalização há a grande empresa local? Será que as múltiplas parcerias e aquisições, será que a participação de nossas empresas em mercados acionistas externos, será que as subsidiárias internacionais pra escoar dinheiro, será que o dinheiro desviado pra paraísos fiscais nos garantem de que a riqueza que vem e há de vir é realmente nossa?
Na minha humilde opinião, acho que o maior sinal de progresso é quando vemos avanços sociais em paralelo ao crescimento econômico, quando vemos o fortalecimento das instituições, quando vemos esforços sendo feitos para assegurar ao cidadão comum os direitos básicos de cidadania e as oportunidades de crescer. É isto que dá a um país um patrimônio crescente e de grande valor:o crescimento da inteligência, da criatividade e da inventividade do seu povo.
Porém o que hoje vemos é uma riqueza intimamente ligada à corrupção, onde os grandes feitos empresariais estão ligados a favores nem sempre devidos do governo, onde o molhar de mãos é prática corriqueira sobre legislativo, executivo, judiciário e imprensa. Do escândalo Collor ao Daniel Dantas, temos conhecimento de tudo, porém vemos a justiça sendo feita sobre nada.
Será que isto é progresso? Dinheiro entrando pelo ladrão e a encenação de que somos um país sério, onde leis são cumpridas e são para todos. Ou continuamos a viver sob o mais puro colonialismo? Que se saqueiem as plantações, que se escave o solo em busca de riquezas, que se drenem os rios, desde que venha o lucro. Lucro pra poucos, pros poucos que subornam, pros poucos que são subornados. Que o povo, este povo que dá popularidade e voto, que compra jornal e revista, que tem o carro roubado e o filho morto por bala de bandido e/ou policial, que corta cana e paga imposto, que é xiita ou é iludido politicamente seja o que sempre foi desde que pisaram os pés aqui: "braços fortes" pra trabalhar.
Existem aquelas bandas que nunca serão a sua favorita, mas que trazem um impacto sempre que você as ouve. Como isso é gosto pessoal, melhor não citar exemplos e atingir fãs xiitas.
Pra mim, o interpol é uma dessas bandas. Gosto muito do seu som com influências do Joy division, da sobriedade com punch que têm em suas músicas.
Portanto, parti com my D numa noite chuvosa (que vinha bem a calhar) para conferí-los.
Não há muito o que dizer sobre eles, pois soam exatamente como nos discos (o que pode ser uma crítica ou um elogio) e são de uma frieza, mas elegância, que sobressai durante o show. O único momento de exceção foi na queda de energia (sim, a chuva ficou mais forte)que interrompeu o show. Na volta, praticamente um bis, a banda deu o seu máximo, tocando com mais vigor, mas sem sair do script.