Sentiu frio pela primeira vez há muito tempo. Levantou a cabeça e só então notou que o corredor da emergência esvaziara-se. Olhou pro pulso fino em busca de um relógio, 3:17 da madrugada. Quase 24h se passaram.
Andares acima, seu marido sendo operado. “Não podemos garantir nada, o traumatismo craniano parece ser grave”, dizia o plantonista, junto com a notícia da cirurgia sendo efetuada.
Perdera-se desde então em divagar sobre sua vida até ali: sobre como se sentia privilegiada em ser esposa dele, logo ela, uma moça tão sem sal, de olhos profundos, franzina, de cabelos sempre escorridos, de rosto rosado, mas nunca com bochechas. Seu privilégio era ele, o marido. Por ele ela estava ali, por ele ela aturava suas brigas na rua, a traição, sua bebida, por ele, sim, pelos seus olhos verdes, sua cabeleira vasta, pela sua força, por essas qualidades, essa presença que causava admiração nas mulheres que ela – uma moça tão sem sal – se sentia feliz.
Continua...----------------
Listening to: travis - happy
via FoxyTunes

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