Eu nunca pensei que veria um show dos Mutantes. Para mim seria algo parecido com um show dos Beatles, porém sem intervenções mediúnicas.
No meu gosto musical, os Mutantes têm a mesma importância de bandas clássicas, como os “fab four”, The Who, Cream e Beach Boys no que diz respeito às boas melodias preenchidas com criatividade, competência e lisergia.
Pensar que Os Mutantes eram contemporâneos destes e que faziam um som de ponta (talvez até para os padrões de hoje), adicionando brasilidade é questão de orgulho.
Mas há um mês atrás, tive o privilégio de vê-los no Circo Voador e, lhes garanto, foi o melhor show de grupo brasileiro que já vi em minha vida! Talvez um dos melhores que já vi.
Além dos originais Sérgio Dias (Batista) nas guitarras, Arnaldo (Batista) Dias no teclado e Dinho baterista, esta formação contou com a “nova mutante”, Zélia Duncan nos vocais, no lugar de Rita Lee. A excelente banda de apoio era composta por mais um tecladista, um multi-instrumentista, um baixista e um casal de backing vocals. Uma banda afiadíssima, que tocou com competência todas as intricadas músicas do grupo.
Hoje, os Mutantes são indiscutivelmente capitaneados por Sérgio, que é quem mais interage com o público. É um guitar hero na acepção da palavra, além de inteligente a ponto de mudar a letra de “el justiciero” na hora, envolvendo Lula, milícias e a cidade partida do Rio.
A platéia foi das mais carinhosas com o grupo, com direito a uma atitude setentista de uma fã, que fez topless. Um breve momento Woodstock naquela noite. Tal carinho e empatia do público fez com que Arnaldo vibrasse a ponto de surpreender ao público, “pagando dez” flexões no fim do show.
Carinho talvez seja a maior definição da função de Zélia no grupo. Ela não tem a menor intenção de substituir Rita, embora pudesse com toda a competência que demonstrou no show – e olha que soube que estava doente ao ponto de ser internada logo após! Mas Zélia é a responsável pelos momentos “cool” do show além de ser a representante dos fãs dos Mutantes ali, alguém que está lisonjeada em estar no meio dos irmãos gênios. Sua interação com a banda é de admiração e alegria, plenamente correspondida com o carinho e o afago merecido a quem já faz parte da banda.
O desafio dos Mutantes hoje é ignorar a sombra do passado e mostrar que é uma banda criativa hoje. Vontade e competência são mostradas às sobras no show. Só nos resta ver se os egos, a idade e as manias não transformaram este retorno em algo apenas passageiro.
Após o show, encontramos Rodrigo Amarante. Figura simpaticíssima. Tirou foto com My Dearest, elogiou minha camisa e travamos o seguinte diálogo (?) no final.
- E aí, daqui a pouco são vocês arrebentando neste palco?
Amarante abaixa a cabeça e sorri amarelo.
Xiiiiiiiiiiii!

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