Nesta quinta passada, ao chegar do almoço (quando vi o jornal local), fui abordado pela funcionária lá da unidade. Ela me pediu pra atender a uma criança que havia sido atropelada no dia anterior e cuja mãe estava desorientada e achava que sua filha tinha perdido vários dentes e não conseguiria comer.
Minutos depois ela entrou, mais desorientada que a filha, a carregar ainda um bebê no colo. Como a maioria das pessoas dali era mais uma pessoa carente, despreparada e desprovida de cidadania.
Olhei as radiografias, fiz os exames clínicos, constatei que não era nada de grave, apenas escoriações na face. Quando começava a dar explicações e orientações à mãe, esta, descontrolada e revoltada, não parava de me interromper com suas reclamações, pois quem atropelara a sua filha fugira, sem prestar socorro.
Coloquei a mão no ombro da mãe disse: "por favor, agradeça a Deus e não reclame, sua filha está viva e bem, tem uma mãe que não pode dizer o mesmo agora."
A mãe parou e concordou, a funcionária foi se esconder atrás da divisória pra chorar. O resto da consulta seguiu-se em completo silêncio.
Consegui gaze e iodo para os machucados, me despedi da família e mergulhei no trabalho, quando esqueci do ocorrido, mas não posso negar que após tanto tempo vivendo aqui e vendo a coisa ficar cada vez pior, dessa vez doeu fundo, a ponto de questionar a misericórdia pra quem é tão desumano.
Que Deus console a família de João Hélio Fernandes.
Referências que não são a verdade, mas baseadas nela. Marcos pra que eu lembre da minha vida no futuro e não me esqueça... de nada!
sábado, fevereiro 10, 2007
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