Referências que não são a verdade, mas baseadas nela. Marcos pra que eu lembre da minha vida no futuro e não me esqueça... de nada!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Hoje eu li...

Rasgar ou deletar? Arthur Dapieve

Dois jovens casais, sentados um de frente para o outro, à mesa da Encontros Cariocas, na Lapa. Conversa vai, conversa vem, surge um celular dotado de câmera. Eles imediatamente começam a se fotografar, com naturalidade, como se o aparelho fosse parte tão integrante da refeição quanto a pizza de carne-seca com catupiry ou o chope preto.

Às vésperas do Natal, suplementos jornalísticos e publicitários se dedicam à infinita variedade deste objeto do desejo portátil. Há celulares que fotografam, que filmam, que baixam MP3, que gravam conversas, que acessam a internet, que publicam diretamente nela as fotos, que sintonizam rádio e TV, que têm games, que têm, juro, tons de chamada e alarme compostos pelo Ryuichi Sakamoto. Diz que há até uns que falam e escutam.

O avanço das câmeras digitais e o acoplamento delas a telefones celulares cada vez mais sofisticados transformaram todo mundo em japonês, né ? Aquele comportamento meio cômico que associávamos aos disciplinados grupos de turistas nipônicos, sempre com suas máquinas fotográficas a postos, hoje está disseminado pelo resto do planeta.

Tanto que aquele velho aviso protocolar antes dos shows (“É proibido fotografar o espetáculo, a não ser com prévia autorização da casa e da produção blablablá”) parece querer revogar a Lei da Gravidade. Antes, durante e depois das recentes apresentações de Lulu Santos, il miglior fabbro , no Canecão, por exemplo, meninos e meninas registravam tudo o tempo todo. O palco, eles mesmos, as paquerinhas. Turismo doméstico: “Estive lá.”

A praticidade das câmaras digitais permite mais e melhores fotos. Elas praticamente eliminaram a falta de foco, a má iluminação e a clássica tremida. Um enorme contingente de maus amadores foi promovido pela tecnologia à categoria de fotógrafos razoáveis. Só não há esperança, não ainda, para aqueles que mutilam seus personagens. Daqui a pouco, entretanto, soará um alarme quando a vovó estiver sendo decapitada.

Hoje, é quase impossível alguma coisa acontecer ao redor do mundo, seja na esfera pública, seja na privada, sem que uma imagem seja gerada. Celulares, máquinas e filmadoras digitais, webcams e circuitos de câmeras de segurança garantem um suprimento inesgotável para as revistas de fait divers , os telejornais, as “Videocassetadas” do Faustão, as CPIs ou os pornôs caseiros estrelados pela Pamela Lee Anderson.

O Big Brother vigia e expõe, mas também denuncia. Carrinho de bebê arrastado pelo trem em Seul. Bebê jogado pela janela do apartamento em chamas de Nova York. Refém ocidental decapitado nalgum ponto do Iraque. Prisioneiro humilhado por soldado americano em Abu Ghraib. Passageiros aturdidos nas galerias do metrô depois dos atentados terroristas em Londres. Diretor dos Correios subornado em Brasília.

Voltemos, porém, aos dois casais mais ou menos hipotéticos lá do primeiro parágrafo. Fotografaram-se, comeram, beberam, saíram dali felizes. As imagens da noite estão lá, no celular, prontas para serem passadas para o computador, publicadas na internet ou, dependendo dos pixels da câmera, impressas em papel. Esta última opção tende a ser a mais rara: os álbuns virtuais de fotos estão substituindo os calhamaços de plástico.

Serão casados? Namorados ainda? Apenas bons amigos? Colegas da firma? Terão acabado de se conhecer? Ou nunca mais quererão se ver antes de o galo cantar três vezes? Daqui a algumas horas, dias, alguns meses, anos, aquela noite na Lapa talvez se torne incômoda para alguém na mesa. Aliás, desculpe, mas o pessimismo me obriga a escrever que mais cedo ou mais tarde aquela noite na Lapa se tornará incômoda para alguém.

Um pé-na-bunda aqui, um chifre lá, o tédio em todo lugar. Como a própria virtualidade da imagem a torna mais frágil do que a antiga cópia em papel, basta selecioná-la e deletá-la. O computador vai perguntar: “Tem certeza que deseja enviar ‘joão & maria na lapa’ para a ‘Lixeira’?” Você: “Sim”. Depois é só esvaziá-la. Acabou-se. Aquilo nunca existiu de verdade. Se mais relacionamentos efêmeros são registrados, também não é necessário um grande investimento emocional para apagá-los da memória — do computador.

Rasgar uma fotografia em papel exigia muito mais. Havia todo um simbolismo em des-pe-da-çá-la, como se ela fosse uma bonequinha de vodu. Até vê-la desbotar tinha lá a sua significação dramática, como cantou lindamente o Billy Bragg, comparando um polaróide que esmaece à lembrança de um amor julgado eterno no dia de São Swithin. É preciso desenvolver uma nova poética para nossa relação com a imagem digital.

Texto de http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/dapieve.asp

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